A infiltração intra-articular é hoje uma das ferramentas mais usadas no manejo não cirúrgico da artrose e das lesões de cartilagem do joelho. Dentro dessa categoria, os hidrogéis derivados do ácido hialurônico — tendo o Hymovis (HYADD4) como principal representante no mercado brasileiro — vêm ganhando espaço como evolução da viscossuplementação clássica. Este texto explica, de forma objetiva e com base em evidência científica, o que diferencia esse produto do ácido hialurônico convencional, quando ele é indicado e por que a escolha do profissional que realiza o procedimento importa tanto quanto a escolha do produto.
O Hymovis não é uma substância diferente do ácido hialurônico (AH), o mesmo componente natural que já existe no nosso líquido sinovial e que é usado há décadas nas infiltrações para artrose. Ele é, na verdade, uma versão aprimorada dessa molécula. Por meio de uma modificação química, pequenas “âncoras” são adicionadas à cadeia de ácido hialurônico. Essas âncoras fazem com que as próprias moléculas se atraiam e se organizem entre si, formando uma espécie de rede — um gel mais firme e estruturado do que o ácido hialurônico tradicional em solução. Na prática, o resultado é um produto que se comporta de forma mais parecida com o líquido sinovial saudável de um joelho jovem: mais espesso, com maior capacidade de amortecer impacto e que permanece mais tempo dentro da articulação antes de ser absorvido, quando comparado ao ácido hialurônico convencional.
Comparado às formulações tradicionais de ácido hialurônico (lineares ou reticuladas por outras rotas químicas), o hidrogel de HYADD4 apresenta algumas diferenças relevantes, sustentadas por estudos pré-clínicos e clínicos: Maior tempo de permanência intra-articular, decorrente da estrutura em rede, o que permite esquemas de aplicação mais curtos. Estímulo à produção de ácido hialurônico endógeno de alto peso molecular pelos sinoviócitos, contribuindo para uma melhora mais duradoura da qualidade do líquido sinovial. Ação anti-inflamatória e potencialmente condroprotetora: estudos in vitro mostram redução da atividade de metaloproteinases (como a MMP-13) envolvidas na degradação da cartilagem, além de menor ativação de vias inflamatórias intracelulares. Em modelos animais de osteoartrite, houve retardo da degeneração cartilaginosa e menor resposta inflamatória sinovial em comparação a controles. É importante manter a expectativa realista: esses achados sugerem um mecanismo de ação mais sofisticado, mas a literatura ainda não demonstra, de forma consistente e definitiva, superioridade clínica do hidrogel sobre todas as formulações de AH em todos os cenários. O racional científico é sólido; a superioridade clínica absoluta ainda está em construção.
As indicações do Hymovis acompanham as da viscossuplementação em geral, com um diferencial importante: Artrose de joelho leve a moderada (graus II e III de Kellgren-Lawrence), como alternativa analgésica e funcional dentro de um tratamento conservador mais amplo. Lesão meniscal degenerativa, isolada ou associada à artrose — indicação respaldada por estudos que mostraram redução da dor e melhora funcional em pacientes com lesão meniscal confirmada por ressonância, mesmo sem indicação cirúrgica imediata. Falha ou resposta parcial a infiltrações prévias de AH, situação em que a mudança para uma formulação com perfil reológico e biológico distinto pode representar uma segunda linha razoável antes de se considerar outras alternativas terapêuticas. Como em qualquer infiltração articular, a indicação deve ser individualizada, após avaliação clínica e de imagem, e sempre inserida dentro de um plano terapêutico — nunca como intervenção isolada.
É comum que pacientes cheguem ao consultório perguntando sobre o Arthrosamid, hidrogel bastante divulgado internacionalmente, mas que ainda não está disponível no mercado brasileiro. Vale esclarecer a diferença, para evitar confusão entre os dois: O Hymovis (HYADD4) é um derivado do ácido hialurônico, uma molécula biológica que dialoga com os receptores e as vias metabólicas naturais da articulação, sendo gradualmente incorporado ao metabolismo local. O Arthrosamid é feito de hidrogel de poliacrilamida, um material sintético não relacionado ao ácido hialurônico. Ele não é metabolizado pelo organismo: forma um arcabouço (“scaffold”) permanente que se integra à membrana sinovial, oferecendo suporte mecânico e coxim de longa duração, mas sem o mesmo tipo de interação bioquímica que o AH modificado exerce sobre a cartilagem e a membrana sinovial. Em outras palavras, são estratégias conceitualmente distintas — uma biológica e reabsorvível, outra sintética e permanente — e não substitutos diretos um do outro. A indisponibilidade do Arthrosamid no Brasil não representa uma limitação de tratamento: o hidrogel de HYADD4 segue como opção validada e amplamente estudada dentro do nosso arsenal terapêutico.
Realizo infiltrações com hidrogel de HYADD4 na minha prática, tanto para artrose quanto para lesões meniscais selecionadas, mas é importante ser transparente sobre seus limites: nenhuma infiltração — seja de ácido hialurônico, hidrogel, PRP ou qualquer outra substância — cura a artrose ou repara uma lesão de cartilagem já estabelecida. O que esses tratamentos oferecem é controle de sintomas e uma janela de conforto para que o verdadeiro pilar do tratamento avance: a reabilitação e o fortalecimento muscular. Por lidar com uma técnica que envolve indicação criteriosa, técnica de punção adequada e acompanhamento pós-procedimento, a infiltração intra-articular deve sempre ser realizada por um profissional com formação específica, experiência e conduta ética — capaz de reconhecer quando o procedimento é indicado e, igualmente importante, quando não é. O resultado depende tanto da qualidade do produto quanto da qualidade de quem o aplica e do plano de reabilitação que o acompanha.
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